Histórico do Grand Hotel Pocinhos

Em 3 (três) de maio de 1882, desembarcou no Rio de Janeiro, vindo de Rocca Gloriosa (Itália) o Sr. Nicola Paolo Domenico Tambasco, posteriormente registrado no Brasil como Nicolau Tambasco Glória.

Em meados de 1884, o Sr. Nicolau, estabeleceu-se em Pocinhos do Rio Verde, aonde mais tarde, desviou o Rio Verde captando a primeira fonte de água sulfurosa e fundou o primeiro hotel da região com o nome de Hotel Rio Verde. A construção era de "pau-a-pique" e tinha como objetivo, atender a demanda de tropeiros e viajantes que passavam pelo local. Alguns registros demonstram que a diária nessa época era de 2$500 réis.

A posterior ampliação do hotel deveu-se à divulgação do poder curativo das águas sulfurosas que brotavam nas terras do futuro balneário. A partir deste momento, começou-se um novo ciclo de demanda no hotel, com uma conseqüente segmentação desta, o segmento de saúde.

Posteriores estudos a cerca do real efeito proveniente do uso da água do balneário foram desenvolvidos pelo Dr. Frederick Andrés Regnell, médico botânico sueco que veio a residir e falecer em Caldas.

As primeiras comprovações da eficácia medicinal das águas de Pocinhos se deram no mesmo momento em que o país enfrentava sérios problemas a cerca da saúde da população. Esta época se caracterizou por uma fase de deficiência nas informações junto à escassez de medicamentos. O que resultava na dificuldade de se obter curas de doenças.

Esta situação fazia com que pessoas de diferentes localidades procurassem em diversos locais e cura e/ou tratamento para seus males. Dentre estas localidades, estava o balneário de Pocinhos do Rio Verde assim como o Grand Hotel. A propaganda de Pocinhos era feita "boca a boca" e muitos da época asseguraram ter obtido os resultados esperados em seus tratamentos.

Como exemplo, de um desses resultados pode-se ressaltar o caso da Srª. Iolanda Rabelo, que ao obter a cura prometeu construir a capela que atualmente pode ser vista no Morro do Galo, dedicando-a a Santa Teresinha.

Capela de Santa Teresinha Morro do Gallo

Em 1911, segundo atestado médico assinado pelo Dr. Fernandes Pimenta, faleceu na cidade de Caldas o Srº. Nicolau Tambasco Glória aos 55 anos. O hotel passou a ser propriedade de sua viúva Maria Alexandrina Tambasco e filhos. Em meados de 1914, a Srª. Nicota como era chamada pelos seus entes queridos, vendeu o hotel ao Dr. José Paiva de Oliveira e sua companheira a Srª. Susane Pellissier que o renomearam Grande Hotel Pocinhos.

A falta de documentação de compra e venda do empreendimento desta época, justifica-se pela falta do código Civil Brasileiro que só foi implantado em 1918. Porém constam nos arquivos do hotel, documentos que comprovam que sua fundação é anterior à primeira data registrada em cartório.

Pouco se sabe sobre a verdadeira história da Madame Pellissier. Os moradores locais relatam que ela era uma mulher muito educada e refinada. Dizem também que muitos dos empreendimentos que constam como dela e de seu companheiro foram adquiridos com as finanças pessoais da francesa. A Madame demonstrava um capricho e uma gentileza com os hóspedes, que estes fizeram questão de deixá-las expressas em um livro de Impressões do hotel, cujos primeiros relatos datam 1919.

Grand Hotel Passeio de cavalos à décadas

Neste livro, podem ser encontradas uma série de reportagens recortadas e coladas cuidadosamente no livro, além das impressões dos hóspedes grifadas possivelmente pela francesa em cor lilás como forma de enfatizar o poder de cura das águas sobre as moléstias de seus hóspedes. São muitos os relatos sobre os serviços prestados pelo hotel na época. Não sendo nenhum deles negativo.

Um fato interessante a ser ressaltado é o de que enquanto proprietária do Grand Hotel, a Madame Paiva mantinha uma fazenda (fazenda da Madame) próxima ao hotel onde eram produzidos os principais itens (legumes, frutas, verduras, carne, leite, etc...) utilizados pelo empreendimento. Atualmente, pouco restou da antiga casa da fazenda. Porém, é possível visualizar a produção setorizada que acontecia no local. Consta também, segundo relatos dos moradores, que a Madame dava aulas diárias de francês e etiqueta a seus empregados. A francesa era então uma mulher diferente às de sua época.

Após a execução das reformas, o hotel passou a possuir um pequeno balneário próprio, quartos sofisticados para o padrão da época, restaurante, etc... Os tratamentos aos hóspedes enfermos, eram ministrados no próprio hotel e cada um deles era tratado segundo as receitas dadas pelos seus médicos. Por exemplo: A pessoa fazia o tratamento com as águas do balneário, tomava seus banhos hidroterapêuticos no hotel (atual sauna) e tinha seu cardápio preparado pelo restaurante de acordo com as indicações alimentares e restrições médicas. Para enfatizar a eficácia curativa dessas águas, a Madame Pellissier utilizou o livro de Impressões.

Em 1918, após repetir suas análises feitas na Fonte Rio Verde, no balneário de Pocinhos, foram comprovados pelo Dr. Schaesffer a eficácia curativa dessas águas. Os resultados e comprovações das análises funcionaram como agentes impulsionadores ao crescimento do Grand Hotel.

Segundo documentos, em 1919 foi feito pelo Grand Hotel Pocinhos o pedido de "Subvenção Klométrica" para a estrada de automóveis que ligaria Poços de Caldas à "Rio Verde Pocinhos" - (Jornal Estado de São Paulo - 09/08/1919). Era uma busca de melhorar o acesso ao hotel tornando-o mais rápido e confortável. Este esforço foi empreendido para promover o aumento do fluxo de turistas na região.

Já em 1920 o Hotel passou por um momento de transformação quando se dedicou também à realização de eventos e atividades do cassino (com o propósito de divertir os hóspedes). Neste mesmo ano, após algumas modificações no Grand Hotel, a Sra. Pellissier o reinaugurou junto ao seu companheiro Dr. Paiva de Oliveira que divulgou nota do evento no jornal "Tribuna de Santos" de 06 de março de 1920(pág. 08 do livro de Impressões).

Após a inauguração do Cassino em 14 de junho de 1920 (como descreve o jornal "Estadinho", pág 26 do livro de Impressões) e frente ao momento em que vivia a sociedade paulista, eram comuns as visitas de hóspedes ilustres. Uma das publicações da época cita a visita de Plínio Barreto junto a outros 40 (quarenta) hóspedes citados no jornal "O Estado de São Paulo" de 23 de março de 1920.

Entrada Grand Hotel

Outras publicações destacam visitantes vindos principalmente de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Merecem destaque, Plínio Barreto (25/06/1920), Arnaldo Vieira de Carvalho, Menotte Del Pichia, Rainha Silvia da Suécia (quando Criança) e Getúlio Vargas (hóspede freqüente do quarto nº 7).

Para se ter uma noção da ostentação vivida pelo hotel em meados de 1920, podemos citar a partir da leitura de relatos e reportagens da época, como exemplos, os seguintes dados:

" O hotel fazia divulgação de seus eventos em importantes jornais da época;
" Possuía uma jardineira, que fazia o traslado dos Hóspedes e também os passeios oferecidos a eles;
" Contava com serviço exclusivo de guia de turismo, identificados por bonés com a inscrição "Grande Hotel Pocinhos". Estes eram responsáveis pela recepção dos hóspedes no terminal rodoviário de Poços de Caldas e pela condução dos mesmos até a jardineira;
" Possuía serviço de guarda-noite para garantir a segurança do hotel e seus hóspedes;
" Possuía agencia própria de correios;
" Como recreação aos hóspedes haviam campeonatos de futebol, (tais eventos foram relatados no jornal "Estadinho" de 25 de junho de 1920) dentre outros eventos merece destaque à narração de um baile de carnaval onde são descritas dentre outras fantasias a de uma família vestida de dominó (25/02/1920, pág 26 do livro de Impressões);
" Possuía também regulamento de utilização dos banhos e águas do balneário como pode ser visto na pág. 48 do Livro de Impressões.

Em 13 de setembro de 1920, segundo o jornal "Comerciais", o pedido de "Subvenção klométrica" foi aprovado e a viagem Poços de Caldas - Rio Verde - Caldas, passou a ser feita em pouco mais de 1 (uma) hora. Este mesmo jornal cita planos de construção do balneário de Pocinhos do Rio Verde (atual balneário Dr. Reynaldo de Oliveira Pimenta) e a idéia de se exportar "águas curativas" pelo Dr. Paiva. A comercialização não foi possível devido aos princípios químicos da água já que ficou comprovado que estas perdem seus feitos curativos em aproximadamente 24 horas, quando armazenadas.

Outros Tempos Grand Hotel

A partir do estudo dos registros, documentos e relatos da história do Grand Hotel, pôde-se constatar a "alta" representação do hotel em meados de 1920. O glamour e a imponência a que os hóspedes eram submetidos era algo inatingível em outros destinos.

Em 15 de janeiro de 1921, foram inaugurados mais 26 quartos no Grand Hotel Pocinhos (pág. 47 do Livro de Impressões). Em março do mesmo ano, foi inaugurada mais uma etapa do Grand Hotel Pocinhos, de acordo com nota publicada pelo mesmo, no jornal "A verdade de Caldas" (13 de março de 1921). Nesta mesma época o hotel tornou-se responsável pela manutenção da estrada que ligava Pocinhos do Rio Verde - Poços de Caldas.

Em 1946 os cassinos foram fechados baseados no decreto-lei 3.688, sob ordem do então Presidente da república Eurico Gaspar Dutra. O cassino do Grand Hotel também foi fechado mesmo tendo como enfoque exclusivo o divertimento de seus hóspedes. Neste ano o hotel foi vendido, ao Srº. Aldo Aliberti e sua esposa Srª. Yolanda Aliberti.

Em 1950 o hotel é novamente vendido, passando então a nomenclatura de Grandes Hotéis Pocinhos S.A. Esta empresa era então administrada dentre outros acionistas pelo Sr. Paulo Pellissier (sobrinho da Madame) e pelo Dr. José Paiva de Oliveira. Entre os anos de 1961 e 1970, o hotel foi administrado pelo Srº. Reynaldo Gomes de Oliveira.

Sabe-se também que a demanda do hotel voltou a crescer depois que voltou a ser administrado por eles. Dados estes que podem ser calculados a partir do cruzamento de informações do número de hóspedes X tempo analisados. Desta época consta no acervo várias publicações de balanços anuais da empresa, assim como atas e convocações para assembléias extraordinárias.

Em 1986 o hotel foi novamente vendido. O empreendimento foi então adquirido pelo Srº. Elias Guimarães Borges e sua esposa Srª Rossana Suaid Porto Guimarães Borges. Nesta época o prédio encontrava-se em péssimo estado de conservação estando inclusive algumas paredes já sem o reboco. Varias reformas e construções foram executadas para que a área do hotel ganhasse a configuração atual.